Design by…

A Apple foi um dos primeiros gigantes tecnológicos que nasceu nos anos 70 em Silicon Valley na Califórnia. Como podem estas empresas inspirar as startups?

De forma surpreendente, a Apple lançou hoje um livro comemorativo que resume os últimos 20 anos de design na empresa de Cupertino, em homenagem a Steve Jobs.

“Designed by Apple in California” apresenta os principais produtos lançados pela Apple desde 1998, como o primeiro iMac, até ao Apple Pencil em 2015. O livro de $200 (versão pequena) e $300 (versão grande) “documenta os materiais e as técnicas usados pela equipa de design da Apple durante duas décadas de inovação”.

Design by Apple in California

Quando regressei ao blog, desejava escrever sobre este tema: Design industrial e de produto.

Sempre me fez alguma confusão porque razão a esmagadora maioria das startups baseiam-se em aplicações e serviços?

Raramente apresentam produtos que implicam a comercialização de hardware ou fabrico de produtos que estejam de alguma forma ligados a design industrial, que resultem em grupos de trabalho e equipas como aquelas que aparecem no vídeo de apresentação do livro da Apple.

De facto, Portugal apresenta o contexto ideal para que as empresas optem por desenvolver serviços e plataformas centrados na distribuição digital. Digamos que será o caminho o mais fácil e seguro.

O que me parece que falta é mesmo uma aposta clara das startups que dediquem ao design industrial e de produto de bens de consumo (ou outros), que apresentem qualidade e valor acrescentado quando comparados com produtos com origem noutros mercados mais… evidentes e que tenham a mesma preocupação com a distribuição global, uma vez que há grandes mercados com interesse em pagar por produtos com qualidade (embora fosse importante apostar no mercado interno, que tanta discussão gera… mas isso fica para outro post).

Depois de lerem estas palavras, dirão: “Oh Phil, mas tu não fazes a mínima ideia do que estás a falar!” E se calhar é verdade. Não faço. Mas olhando à minha volta e para o universo de startups que pipocam todos os dias e olhando à necessidade de diversificar a oferta, parece-me que é preciso ir para além da “economia criativa” e digital, especialmente agora que vivemos um período pós-Web Summit e Lisboa continua, como sabemos, a atrair a curiosidade dos investidores e media estrangeiros, porque me parece que ainda estamos muito longe de conseguir dizer que somos diferentes ou nos conseguimos sequer comparar com Silicon Valley ou Berlim.

Que vos parece? Faz sentido esta visão? Não sentem que um produto como o eero não tinha tudo para ser produzido em Portugal? Conhecem casos que comprovem que estou errado?

  • «De facto, Portugal apresenta o contexto ideal para que as empresas optem por desenvolver serviços e plataformas centrados na distribuição digital. Digamos que será o caminho o mais fácil e seguro.» – Não sei exactamente porque é que Portugal apresenta o contexto ideal para as empresas optem por desenvolver serviços, mas certo é que não apresenta o contexto ideal para criar produtos físicos. Pelo menos os de que falas.

    A maioria destes produtos não surgem do nada. Com isto não quero dizer que uma empresa de serviços surja, mas as necessidades iniciais são menores, i.e., precisas do capital humano, de financiamento, de contactos e de capacidade de vender (do marketing à distribuição). Para a fabricação de produtos físicos precisas de tudo isso mais tudo o que está relacionado com a produção. E isto implica know-how, infraestrutura, investimentos em “capex”, gestão de inventário, etc. Mesmo que uses meios de produção na China, tens de ter capacidade de prototipar e capacidade de ires à China negociares a fabricação. E isto não é só meteres-te num avião.

    E há mais: muitas destas actividades têm um contexto histórico. Por exemplo, a Suíça produz imenso equipamento de precisão, seja peças para carros, sejam implantes médicos, sendo que muita dessa capacidade (infraestrutura e know-how) deriva da indústria dos relógios. Claro que há possibilidade de se começar do zero, mas tendencialmente estas coisas fluem dum ecossistema. Mesmo mentalmente, é muito mais fácil um recém-licenciado inspirar-se num Instagram do que num processo de optimização de montagem de peças. Ou a um “investidor” pensar que só precisa de pagar a uns putos uns computadores e uma máquina de café para ter o seu negócio “explosivo”, do que investir em moldes, ou em comprar componentes.

    Finalmente, produzir produtos físicos implica, invariavelmente, mais investimento. Esse é um problema crónico do país: existência de capital e de capacidade de investimento. A eero já leva quase 100 milhões de investimento e vê o CV de alguns dos seus fundadores. Nós ainda estamos a dar os primeiros passos nisto.

    Quando dizes “Não sentem que um produto como o eero não tinha tudo para ser produzido em Portugal” pergunto-me o que é que queres dizer com isto? Obviamente os portugueses não são mais ou menos inteligentes que os Californianos, que há gente que consegue desenhar e fazer circuitos electrónicos, que há gente que consegue fazer plásticos para a caixa, que há gente que consegue criar um site e materiais de marketing tão bonito. Sim, claro que há. Como há em qualquer país da Europa, por ventura em grande parte do mundo. Mas mesmo que seja um tipo com uma ideia “brilhante” que fundou a eero, se calhar pôde rodear-se de tipos que trabalharam em desenvolvimento de routers na Apple ou na Cisco, que trabalhavam ali ao lado e tinha experiência. Não faço ideia se é esse o caso, mas estou a exemplificar. Não quer dizer que não haja nichos bons, em PT – há experiência nos têxteis, nos moldes, em redes, etc, mas é preciso mais.

    O que não há é dinheiro (e isto não significa só capital, mas gente que saiba investir, que tenha as redes certas, que tenha prática) e não há ecossistema. Posto isto, não quero dizer que nos resignemos ao facto de estarmos condenados a não fazer nada. Não é nada disso; apenas que este “cenário” custa muito tempo e esforço a montar. Estamos melhores do que o que estávamos, mas ainda falta.