Oportunismo

Em 2017, entramos no ano de eleições autárquicas. Como morador em Lisboa, não podia deixar de reparar no chamado oportunismo e eleitorismo populista barato.

Desde já, devo referir que concordo com a necessidade de renovar e reabilitar algumas das principais avenidas de Lisboa. Assim que surgiram as primeiras notícias que davam conta da existência do projecto de renovação do principal eixo de Lisboa, entre Entrecampos e o Marquês de Pombal, não podia deixar de ficar com um sorriso na cara, porque corrigia algumas coisas que eu achava que estavam erradas, desde a altura em que foram cometidas algumas atrocidades, a maioria delas durante o mandato de Krus Abecasis. Mas não só. Também estou a lembrar-me dos túneis do João Soares e de Santana Lopes. E é precisamente por aí que eu começo a criticar as obras do Presidente que nunca foi eleito, Fernando Medina.

Saldanha
Saldanha

Como referi, o projecto de renovação do eixo Entrecampos / Marquês de Pombal, tem como objectivo devolver a cidade às pessoas. Mais e maiores passeios, mais árvores e espaços verdes. Estou absolutamente de acordo com esta premissa. Mas é preciso ter em conta alguns factores que estão a ser claramente esquecidos. O que me preocupa é que estão a ficar esquecidos pelo evidente oportunismo eleitoral.

 

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Ao contrário do que foi referido inicialmente, o projecto não foi concretizado por fases e nem a organização do Web Summit retraiu a CML e a concretização da obra tem ocorrido ao mesmo tempo, provocando o caos em Lisboa. Obviamente que o timing não é inocente, afinal estamos a menos de 1 ano das eleições autárquicas.

Teremos naturalmente um eixo central e fundamental da cidade com uma nova cara em 2017. Mas há outros problemas que estas obras não resolvem. A tendência das grandes cidades é devolver os seus espaços públicos às pessoas e retirar os automóveis e o trânsito do centro das cidades. Reparem… só agora fiz referência aos automóveis, até porque, a face visível do caos é precisamente do trânsito que a cidade tem apresentando nos últimos meses, desde o início das obras. O que este projecto falha, entre outras coisas, é na eliminação ou redução da circulação automóvel em Portugal. É um projecto pós-túnel do Marquês, uma obra que nunca deveria ter acontecido. Nunca, porque é uma obra convida à entrada de mais automóveis em Lisboa. E o mais grave é que tem ficado a sensação no último ano, terá aumentado o número de automóveis que entram em Lisboa. E aqui passamos para outro problema que fica por resolver: Transportes públicos.

Mais uma vez, não se aproveita a oportunidade para repensar a rede de transportes públicos em Lisboa. Apesar da passagem da gestão da Carris e do Metro para a CML, será muito difícil recuperar o dano provocado pelo impacto financeiro da intervenção da Troika nos transportes públicos da capital portuguesa. Veja-se o que aconteceu ao Metro, que eu considerava o melhor meio de transporte de Lisboa. Foi em Setembro passado que tive a confirmação de que estava perante um gigantesco problema. Quando viajo para o estrangeiro, tenho o hábito de levar comigo o cartão Viva. Assim, quando chego ao Aeroporto de Lisboa, rapidamente entro no Metro, sem grandes demoras. Em Setembro, quando cheguei de Copenhaga (ainda tenho que escrever sobre Copenhaga), chego ao Metro e vejo o caos. Um gigante fila para comprar o cartão Viva e duas, repito, somente duas máquinas (estão lá mais), estavam a funcionar e só aceitavam o carregamento de cartões. Nesse momento, reparo que me tinha esquecido do meu cartão e imediatamente tiro o iPhone do bolso e chamo o Uber. Na altura, lembro-me de pensar imediatamente na imagem que os turistas que ali estavam na fila, guardariam da cidade de Lisboa. Afinal, a primeira impressão não era seguramente a melhor.

É verdade que não sou um utilizador diário do Metro ou da Carris, mas o que tenho lido é que estas duas redes estão muito, mas muito longe de oferecer um serviço com o mínimo de dignidade. Quando a cidade de Lisboa aparece nos tops de tudo… com certeza que não aparecerá nos melhores tops, no que diz respeito a transportes públicos e cada vez mais, torna-se relevante a existência de serviços como o Uber ou o Cabify.

Outro problema que o projecto de Fernando Medina não resolve, para além da entrada de veículos na cidade, é o estacionamento desses veículos ou dos veículos dos moradores. Na Penha de França, por exemplo, combate-se o abuso do estacionamento dos moradores, através dos famosos pilaretes, o que provoca uma redução abrupta de lugares do estacionamento. Então, onde serão estacionados os actuais veículos? Bem sei que está na moda recomendar rapidamente que os moradores deixem de utilizar o automóvel. Mas não é assim tão simples. São zonas mal servidas de transportes públicos e não vamos forçar a saída dos moradores para zonas mais afastadas do centro da cidade.

E por falar em pessoas… o actual presidente Fernando Medina acha que Lisboa estará eternamente cheia de turistas que enchem a cidade de pessoas e dinheiro? Não estaremos a criar espaços que ficarão às moscas daqui a uns anos? Já terão reparado com certeza, na quantidade de espaços de restauração e hotéis que abriram nos últimos anos? Terá a cidade capacidade para receber novos moradores que não sejam franceses? (acham que o Eric Cantona ou a Monica Bellucci vinham para Lisboa porque isto é realmente espectacular?)

Vou mais longe… estará a cidade preparada para ter novos moradores, que estejam mais próximos de um estilo de vida que dispense a utilização de automóvel? Mas isso só fará sentido numa cidade com uma rede eficaz de transportes públicos, certo? Ou acham que o Uber resolve todos os problemas, quando o Uber também é uma bomba relógio? (eu sei, eu sei… ainda temos as bicicletas e as motas)

Como podem verificar, a cidade de Lisboa apresenta muitos problemas (e só descrevi alguns dos que estão de alguma forma ligados a este projecto do Eixo Central) que deviam merecer a melhor atenção da Câmara Municipal de Lisboa e parece-me de muito mau gosto utilizar as obras o Eixo Central da cidade para captar votos de uma cidade cada vez menos eleitores.

Dito isto, parece-me evidente que não votarei no actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Isso está garantido. Agora a inexistência de alternativas preocupa-me.