You’ll soon be here

“You’ll soon be here” é o nome do documentário que está a ganhar notoriedade nas redes sociais, pelo alerta que lança sobre o turismo em Lisboa.

O mini-documentário de 37 minutos tem a autoria do realizador italiano Fabio Petronilli que venceu o prémio do público do último Arquitecturas Film Festival.

O filme aborda a questão da gentrificação e o massificação do turismo na cidade de Lisboa e a forma como esses factores têm impacto nas comunidades e pessoas que vivem nos bairros de Lisboa, com principal foco na Mouraria, historicamente, o bairro mais “fechado” da cidade.

 

Sempre me fez alguma confusão como os críticos do excesso de turismo em Lisboa, são os primeiros a apreciar a forma como são recebidos em cidades como Nova Iorque, Londres, Paris, Roma ou Barcelona, cidades que têm apresentado algumas das mesmas queixas em relação à massificação (e democratização) do turismo.

Então como poderão ser ultrapassadas estas questões? Como podem as cidades apostar no turismo e na oferta cultural, sem prejudicar socialmente a população local (e até evitar a normalização da oferta das cidades)?

No caso português, estamos a falar de bairros socialmente frágeis e degradados, que são apenas os bairros mais visitados no país inteiro. É quase insustentável o ponto a que se chegou. Sim, sou obviamente favorável ao turismo em Lisboa. Sim, sou obviamente favorável à presença de plataformas de alojamento de curto-prazo, como o Airbnb. Mas como em tudo na vida, há limites e bom senso e parece-me que chegou a altura da Câmara Municipal de Lisboa assumir estas questões no próximo mandato.

O documentário foca-se em pontos essenciais que merecem a melhor atenção da Câmara Municipal de Lisboa. A saber:

  • Abandono dos bairros dos jovens
  • Chegada de novas comunidades
  • Nova estrutura social (potencial economia circular)
  • Crise e a intervenção financeira da Troika
  • Revisão da Lei do Arrendamento e reabilitação
  • Massificação do Turismo

São pontos que estão ligados entre eles. Com o abandono das novas gerações, muito por culpa da crise e da Troika e a necessidade de um porto seguro (no mundo em que vivemos, oh se Portugal não se tornou num porto seguro), os bairros são ocupados por novas culturas e formas de pensar, obrigando à criação de uma composição social. Como uma das condições do memorando da Troika obrigava à liberalização do arrendamento, surgiu uma nova vaga de prédios reabilitados, o que permitia aos seus proprietários, despejar os inquilinos sem qualquer impedimento judicial. O problema é que os prédios reabilitados têm como função, o alojamento local, recebendo milhares e milhares de novos turistas, não havendo reposição de residentes nesses bairros.

Se por um lado, temos bairros antigos com uma nova dinâmica, por outro lado, os negócios mais antigos não resistem, não se adaptam e acabam por fechar, os bairros ficam descaracterizados e no futuro, essa descaracterização pode provocar um afastamento dos turistas. E os bairros, com o perfil que apresentam hoje, não estão preparados para essa realidade. Nesse sentido, insisto que a Câmara Municipal de Lisboa não pode focar-se nas obras de embelezamento da cidade (um dia falarei sobre elas e sobre as quais tenho mixed feelings), mas no impacto do turismo na estrutura social da cidade e dos bairros populares, bem como na forma como a cidade precisa urgentemente de recuperar residentes e tanto quanto possível manter o “bairrismo” nos locais onde ainda é possível encontrá-lo.